I Concurso Uma História em Imagem(s)

Proposta a ilustração de um excerto da narrativa “Hélia, a filha do sol”, disponível em https://drive.google.com/file/d/1iorh2U0z5ilW6-EzjdQoRLP1RPMlynK3/view?usp=sharing, a grande vencedora foi a imagem abaixo, da autoria de

Beatriz Paulo, 9.º A

A história completa poderá ser lida em https://drive.google.com/file/d/1CR2fxH_nFkEzcZtXKjkTcV0Y18Ug1w2Y/view?usp=sharing

XVIII Concurso de Conto

2.º Classificado

Rui Verdasca, 12.ª H

TUDO PODE UMA AFEIÇÃO

No ano de mil quinhentos e setenta dois, quando o Paço da Ribeira ribombava com uma das suas habituais festividades, tão típicas da corte portuguesa e do pueril rei que sempre se regozijava em caças reais e noturna embriaguez, caminhava à beira do Tejo um sujeito que, olhando o azul nítido das águas, em vão procurava uma ablução que o salvasse. Sentindo o cansaço que o consumia há dias, estava ele no ponto de seu limite, e a vereda em sua frente, tão bonita, nunca fora tão dilacerante como agora. Em verdade, sabia ele que caminhos fizera muitos, mais do que a condição humana requeria, e tantos mais tinha pela frente. Esses eram, contudo, um só – restante e ínfimo (para ele a futura completude) na teia de trilhos e vias que todos os dias se concretizam na vida dos homens. E em breves horas, se é que existem horas ou brevidade, o grande trajeto da sua vida veria o seu princípio, cuja voragem do sonho faria com que acabasse tão rapidamente como começaria. O tempo, na verdade, extingue-se quando em espírito nos tornamos. Não o sentimos. E ele caminhava.

Antes de entrar em sua casa, tinha sido alvo das habituais galhofas que este povo lisboeta lhe lançava, em concreto pelo facto de que do olho direito não via, perdido este na sua viagem ao Oriente. Restou-lhe o esquerdo, local do Diabo; mas que, em pacto com o mesmo, lhe deu dupla visão, afincada e feroz. Tantas vezes dilacerado pela visão dos olhos dos que amou, e daquele verde que nunca se olvidaria, procurava agora a estabilidade que o seu coração tão informe, nunca satisfeito, dificilmente lhe dava. Há tempos, escrevera sobre a insatisfação e dessa felicidade que chega e foge. Lembrava-se vagamente de seus versos, ofício doloso para poeta que é o regurgitar o que se escreve, e matutava na sua mente Não ganhou para perder; mas ganhou, com vida igual, não ter bem nem sentir mal. Que é isso, no entanto, de estar no entre das coisas? Ver serenidade, ler Horácio, lembrar Epicuro? O que sabem eles do amor intenso de um homem que tudo sente e tudo quer e tudo faz? Não sabem nada. O sentimento é englobante, desintensifica-se e retorna num eterno loop de oitos e oitentas, de tal modo que o determinismo, tão real, se submete de joelhos esfarelados àquilo que, sendo inefável, damos o nome amor.

A razão pela qual não sabemos ainda o nome do nosso caminhante deve-se, primacialmente, ao facto de também ele ser desconhecido, na história que aqui se desenrola. Eram poucos os que conheciam o nome de Luís Vaz de Camões. Tinha mãe esperando em casa, amor primevo que só mães conhecem. E poucos eram os seus conhecidos e amigos, para além dos seus amores que perseguia, em caso esquecidos, já que os rios de tinta que escrevera serviam essa mesma função reminiscente. Ultimamente, apenas o inquisidor-mor do Santo Ofício o ia vendo com alguma frequência, nas viagens de idas e voltas que Luís Vaz dispunha, a fim de finalmente publicar a sua obra, poema épico sobre a gesta portuguesa no Oriente. Eis o motivo de seu cansaço e descontentamento: esse ofício, que é santo, obrigara-o a modificar estâncias e versos, tão queridos na mente de um poeta, pelo que tão contundente é ter que os assassinar. Muito paradoxal era, então, essa santidade – uma que nos deu liberdade, lá com Adão e Eva, e agora o calava, como se não tivéssemos comido a maçã da árvore da vida, para vermos que somos nus.

Tendo entrado em casa, o parecer do Santo Ofício tinha sido em boa hora e, desta vez, permissivo; mas Luís Vaz, numa última vertiginosa releitura, não estava satisfeito. Tudo retornava ao seu canto nono, seu canto tão precioso que a seus olhos era o seu orgulho. Lia-o com frequência quando, pacato e tristonho, tentava buscar-lhe algum deleite, algum descanso. Pensando-o irrealizado, mormente com a parte final do canto sublime, e lembrando Ovídio quando este escrevia finis coronat opus, sabia que necessitava coroar o final para que a sua obra enfim se concretizasse na sua plenitude. E tudo voltava a Platão: a chave aristofânica da vida e da obra camoniana, o seu epítome vital que é o transformar-se o amador na coisa amada. Estranha linguagem pensaria Luís Vaz: um apelido, Camões, tornar-se em adjetivo, camoniano, este que desconhecido era. Sentia, de qualquer forma, que faltava algo entre o verso que acabava a estância octogésima segunda Que todo se desfaz em puro amor e o que iniciava a sua octogésima terceira Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas. Porém, qual era a carência dessa poesia? Cerca de seis estrofes, que Luís Vaz ainda não conhecia; mas era forte e grandioso o que profetizava escrever, porque o fim é, discorram os eruditos, o clímax do que se implanta no papel, tal como o é da vida. Não conhecia, contudo, o que faltava, esse quê ainda não materializado, se alguma vez o foi. E em desespero de criador, pronto a enunciar novamente, em rugidos interiores, não mais, não mais que a lira tenho destemperada e a voz enrouquecida, caiu Camões em sonoe, nesse profundo Oceano dessa Ilha que vinha relatando, sonhava…

Na Ilha em que estava, esta que é do Amor e não dos Amores, via todo o tipo de verdes que a Natureza podia conjurar; mas, no topo, entre as nuvens, estava o mais distinto de todos: o dos olhos daquela vista que nunca se olvidaria. A sua grande paixão, ainda pequenina neste a priori que é o ver, fulminava-o, e Camões corria, louco, fugindo cada vez mais da realidade que o ameaçava acordar.  Exasperante, a escada etérea prostrou-se ante seus olhos: ah, que tudo acontece nos olhos! Subia os degraus, os mais intensos, o caminho que lhe faltava percorrer… Certamente Vénus estava a olhá-lo em deleite. Subia, pensando no Tejo, e sobre os rios que vão ao seu encontro, afinal ele os procurava. Em raio agigantado, trovante, criador, Camões perdeu-se entre as nuvens, verdeficando-se, se se pode neologizar o inefável, pleno na constante poeticidade sua de transforma-se o amador na cousa amada. Ah, Aristófanes, que em banquete vias Sócrates e ele a ti te via! O olhar de ambos, as metades e a escada! A Ilha transformou-se, Camões transformou-se, e tudo passou a verde. Foi o amor, e despertou… Luziu a lamparina, a luz era real. Deixando a espada de seus infortúnios passados, pegou na pena, sua estimada instrumentalização de si mesmo, e em voragem espiritual, não sentindo o tempo, escreveu esses versos que lhe faltavam. Principiando uma nova estância octogésima terceira Oh! Que famintos beijos na floresta, acabava quarenta e seis versos depois Com fama grande e nome alto e subido. Havia terminado a derradeira obra. E pensava: olhos verdes, olhos verdes que sois o sumo da perfeição e porque são vossos! E, por isso, meus…

Luís Vaz, imaterializando-se, em verdade se diga, para sempre de louro e de ouro e flores abundantes, subiu ao telhado de sua casa. No topo, vendo ao longe o Paço da Ribeira e as festas que lá iam, olhou o Tejo: a água era, e sempre fora, verde. Olhou de novo e, finalmente, já quase no fim da vida, após inúmeros galanteios e engates, percebeu que o Amor é um só: para um amador, uma só cousa amada, a metade que vagueia pela outra, pelas ínsulas mais dispersas em oceanos por achar se aí for verdadeiro o sentimento líquido da origem criadora. Em cima do telhado, sentindo a alma em que se tornara, unindo-se nele mesmo, no poema que pelo amor terminou, e olhando somente o verde do Tejo, murmurou, sorrindo, tudo pode uma afeição

Concursos da Mediateca

Depois do XIX Concurso de Poesia, com participações excelentes, que acabaram por valer um prémio nacional para o nosso aluno Miguel Mota (2.º lugar no Concurso Faça Lá um Poema, promovido pelo PNL), iniciamos hoje a divulgação dos premiados dos restantes concursos dinamizados pela Mediateca (Conto, Fotografia, Uma História em Imagem(s) e Fala Barato).

3.º Classificado

Ariana Roque, 11.º A

Conta-me uma história mamã

– Sofia! Anda para a cama que amanhã tens escolinha bem cedo. –Chamei-a já exausta de um longo dia de trabalho.

-Já vou mamã, andava só à procura do meu ursinho de peluche. – diz-me deitando-se na cama e deixando-me aconchegá-la.

Acabo de a preparar para dormir e vou-lhe desejar uma boa noite de sono quando ela me interrompe.

-Mamã, mamã! Conta-me aquela história de como tu e o papá começaram a namorar, aquela que eu gosto muito, por favor mamã conta! – pede-me impaciente e com aquela carinha adorável à qual não consigo negar nada.

– Pronto convenceste-me eu conto-te a história- digo dando um grande sorriso. Esta também é a minha história preferida- “Há dez anos atrás numa pequena cidade, vivia uma menina muito sonhadora. No seu 17º aniversário, no temível ano de 2020, apareceu um poderoso feiticeiro chamado Corona que afetou, não só a cidadezinha da Mafalda, mas também todo o mundo. O feiticeiro era muito poderoso e muito mau. Punha as pessoas muito doentes e trancava as restantes nas suas casas, separando-as das famílias e amigos o que as deixou muito tristes. Diariamente heróis que salvavam pessoas doentes, lutaram arduamente contra o Corona, mas foi uma guerra que demorou muito tempo.

A Mafalda era uma das pessoas trancadas em casa. Não podia sair para lado nenhum, nem podia abraçar os que amava, algo que aos poucos e poucos foi deixando a Mafalda numa tristeza profunda. Quando a Mafalda, cansada de viver em tão grande tristeza, começou em pensar trocar de mundo, apareceu-lhe um belo príncipe encantado que a salvou da sua tristeza”…

-Mas mamã, se as pessoas não podiam sair de casa, como é que o papá, quer dizer o príncipe salvou a Mafalda?

– O príncipe escreveu à Mafalda. –expliquei, recordando-me de como me senti ao receber a 1.ª mensagem do Martim. – ….“O príncipe, que se chamava Martim, era um colega de escola da Mafalda, porém nunca foram muitos chegados, ainda que Mafalda gostasse dele em segredo.

O príncipe escreveu a Mafalda que tinha saudades dela como colega e perguntou-lhe se estava bem, as conversas normais que as pessoas têm, mas daí surgiu uma forte amizade. Os dias, as semanas e os meses foram passando e Mafalda e Martim foram-se tornando cada vez mais amigos, até que um dia os seus corações se uniram e eles souberam que estavam destinados a ficar juntos.

Quatro meses tinham-se passado desde o inicio da enclausura, duas semanas desde que o Martim confessou a Mafalda o seu amor e ainda não se podiam encontrar nem o selar com o beijo típico dos contos de fadas, porque o malvado Corona ainda dominava o mundo e impedia as pessoas de sair de casa.

Mais meses se passaram e os namorados cada vez mais desesperavam por sentir o toque um do outro, mas o Corona permanecia e parecia estar a ganhar a guerra contra os heróis, que sucumbiam aos furiosos ataques do inimigo. Todavia, Martim não parecia ter medo do Corona e saía à socapa de casa para observar Mafalda da janela do seu quarto. Nestes encontros proibidos, Martim declama belos poemas à sua amada enquanto ela o escutava com muita atenção, trocavam-se olhares apaixonados e grandes sorrisos, foi então num destes momentos que juraram que no dia em que os heróis banissem o Corona os dois iriam dar um belo passeio. Continuaram a encontrar-se assim às escondidas, mas um dia Martim não apareceu. Mafalda ficou muito preocupada e escreveu logo ao seu amado. Ele não respondeu. Soube mais tarde por outros que Corona o tinha apanhado. Mafalda nem pensou um segundo, agarrou no que precisava e partiu logo em busca de Martim, mas uma heroína sua amiga impediu-a e prometeu que faria tudo o que lhe fosse possível para o salvar das garras do Corona”….

– O Corona fez mal ao papá, mamã? – disse-me com uma carinha de preocupação.

– Não querida, o papá era um rapaz forte, tal como tu és uma criancinha forte- disse-lhe fazendo cócegas na barriga.

-Espero que tenhas agradecido à tua amiga heroína, porque ela cumpriu a sua promessa! – diz-me esboçando um enorme sorriso. Lembro-me do quão feliz fiquei ao saber que o Martim recuperou da doença. Eu não conto à Sofia, mas o pai dela esteve mesmo às portas da morte. Continuei a minha história:

….“Então passado uns dias (na realidade foi mês e meio) a amiga da Mafalda trouxe o Martim são e salvo e a Mafalda agradeceu-lhe imenso pela sua ajuda. Passado umas semanas as noticias porque todos esperavam chegaram: os heróis estavam a ganhar na guerra ao Corona, esta notícia alegrou a todos e encheu-os de esperanças. Mafalda escreveu logo a Martim: “Finalmente meu amor, finalmente vou poder ver-te e abraçar-te. Já falta pouco querido Martim. Com amor, Mafalda.” Demorou apenas uma semana para conseguirem expulsar de vez o Corona e finalmente as pessoas conseguiram sair à rua.

Mafalda alegrou-se mal pôs o pé na rua. Apreciou o sol na sua face, e o vento nos seus cabelos por uns momentos e logo correu pela cidade fora em busca do seu grande amor, encontrou-o a meio caminho. Parece que tiveram a mesma ideia. Hesitaram por instantes. Era estranho pensarem que finalmente se iriam tocar, quase após um ano de namoro. Foi então que correram para os braços um do outro e selaram o seu amor com o tão esperado beijo.

– E foram felizes para sempre mamã? – pergunta-me Sofia, radiante e com um brilho dos olhos. Esta era realmente a sua história preferida.

– Sim meu amor, eles foram felizes para sempre, principalmente, quando anos mais tarde tiveram a sua filha Sofia. – Ela soltou um delicioso sorriso- Mas agora a menina Sofia tem que dormir que já é muito tarde- falei seriamente e ela assentiu com a cabeça.

Despedi-me com um beijo na testa e apreciei a sua forma de dormir por uns momentos. Segui para o meu quarto onde o Martim já estava deitado a ler um livro. Preparei-me para dormir e deitei-me ao seu lado. Reparo na sua face e sorrio, realmente ele e a Sofia são as melhores coisas na minha vida.

– Amo-te meu amor! – digo-lhe olhando-o apaixonadamente.

Ele pousa o livro e aconchega-me junto a ele.

-Também te amo! – diz-me beijando-me a testa. E então adormeço no calor dos seus braços sentindo-me a mulher mais sortuda do mundo.