{"id":306,"date":"2020-06-24T12:13:00","date_gmt":"2020-06-24T11:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/?p=306"},"modified":"2020-06-24T12:13:02","modified_gmt":"2020-06-24T11:13:02","slug":"xviii-concurso-de-conto-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/?p=306","title":{"rendered":"XVIII Concurso de Conto"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/XVIII-CONTO_reduzido.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-262\" width=\"336\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/XVIII-CONTO_reduzido.png 707w, https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/XVIII-CONTO_reduzido-300x210.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><span style=\"color:#ff0101\" class=\"has-inline-color\">1.\u00ba Classificado<\/span><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong><span style=\"color:#1500ff\" class=\"has-inline-color\">Diogo Heleno, 12.\u00ba B<\/span><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>Livro Segundo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong><em>\u00abBenedixitque illis Deus et ait crescite et multiplicamini et replete terram et subicite eam et dominamini piscibus maris et volatilibus c\u00e6li et universis animantibus qu\u00e6 moventur super terram\u00bb<\/em><\/strong><a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab\u00d3 Senhor, eu sou Voss[a] serv[a], sim, Voss[a] serv[a] e filh[a] de Vossa escrava. Quebrastes as minhas cadeias; sacrificar-Vos-ei uma v\u00edtima de louvor\u00bb<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>. Meu Amor por V\u00f3s \u00e9 aderente e tomado de tal tenacidade que resiste a qualquer tentativa de rutura. Quebrem-se-me as t\u00edbias, \u00f3 meu Deus, para que n\u00e3o possa mais andar. Arranquem-se-me as maxilas, \u00f3 meu Deus, para que n\u00e3o possa mais falar. Perfurem-se-me as veias, \u00f3 meu Deus, para que n\u00e3o possa mais existir. E nesta falta de andamento e de fala e de exist\u00eancia, habito em V\u00f3s e por V\u00f3s me encho de j\u00fabilo. Ouvi agora benignamente esta pr\u00e9dica que a V\u00f3s se dirige, porque a ignom\u00ednia n\u00e3o se esgotou no que j\u00e1 disse, antes jaz putrescente nesta minh\u2019alma sequiosa de imaculabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Prosseguirei, pois, com as minhas h\u00familes <em>Confiss\u00f5es. <\/em>E neste momento de resolu\u00e7\u00e3o, tacteio o meu cora\u00e7\u00e3o e lhe reconhe\u00e7o o Amor fecundo por Nosso Senhor Jesus Cristo em cada uma das suas fibras. Tangei-mas, \u00f3 meu Deus, neste instante de mortifica\u00e7\u00e3o cavada at\u00e9 ao \u00e2mago pel\u00e1gico desta minha ess\u00eancia, e fazei delas suave melodia que desperte os Homens deste malfadado sono e os restitua \u00e0 vig\u00edlia, tal qual David, que tangendo, por seu turno, sua lira, expurgava Sa\u00fal de seus malignos esp\u00edritos. Que eu seja Vossa lira e que o canto que dela emane seja pleno de complac\u00eancia e Vos louve segundo a Vossa imensid\u00e3o, grandiosamente, com tamanha veem\u00eancia que supere em intens\u00e3o a de todas as canoras trombetas, sonoros c\u00edmbalos, ressonantes salt\u00e9rios, c\u00edtaras, frautas, sinos, aulos, tambores! Um grito de aleluia expedido ao mais elevado firmamento!<\/p>\n\n\n\n<p>Dest\u2019arte, iniciarei minha confid\u00eancia. Por V\u00f3s guiada fui at\u00e9 \u00e0 long\u00ednqua Nicom\u00e9dia, penitenciando durante a longa peregrina\u00e7\u00e3o, na tentativa de fazer luzir da minha comorbidade clareira imensa que me livrasse da v\u00e9rmina de que padecia. E, \u00f3 meu Deus!, quanto Vos agradece esta Vossa serva por nunca me faltardes, mesmo naquelas asfixiantes e calcinadoras Horas Sextas de ver\u00e3o! Orava perseverantemente, pelas folhagens desfalecidas, pelas crespas sar\u00e7as, \u00e1speros cardos e abrolhais, pelos arbustos que inclinavam as sumidades ante o Sol f\u00e9rvido, rememorando-me dos Vossos mist\u00e9rios e da paix\u00e3o de Cristo, apropriando-me da fogosidade do astro e transformando-a em fogosidade religiosa. E nesses momentos de \u00eaxtase, olhando a espa\u00e7os aquilo que me circunscrevia, n\u00e3o eram rochedos, nem arroios, nem boninas o que t\u00e3o comoventemente observava, mas sim obras de Deus, obras Vossas, penetradas pela Vossa claridade!<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o compreendi qu\u00e3o paras\u00edticos s\u00e3o os Homens, e eu, meu Deus, e eu! Pois qu\u00ea? \u00c9 que dissestes ao dia sexto que o Homem dominasse as restantes criaturas, mas n\u00e3o seria esse dom\u00ednio para ser praticado da mesma forma com que nos dominais, caridosa e benevolentemente? Disse Jesus: <em>iam non dico vos servos quia servus nescit quid facit dominus eius vos autem dixi amicos quia omnia quaecumque audivi a Patre meo nota feci vobis<\/em><a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>. Se assim \u00e9, n\u00e3o deveria o Homem agir perante a Vossa Cria\u00e7\u00e3o exercendo dom\u00ednio amical, zeloso em desbastar as ramudas cepas e lhes conservar os ped\u00fanculos c\u00e1rpeos, em vez de consumir essa mesma cepa? Sim, porque os Homens n\u00e3o se saciam com os carpos somente, sen\u00e3o que devoram tudo o que lhe surja, os ped\u00fanculos, as hastes, as estirpes, a seiva, os seixos, o que os rodeia, e o que mais al\u00e9m se figura. Devoram o horto, a leiva inteira, o latif\u00fandio e tudo o que lhes \u00e9 menor e subordinado, os currais, os terreiros, os eirados, as varas, rebanhos, cardumes, os pr\u00f3prios hortel\u00f5es, rendeiros, granjeiros! Devoram tudo e os da pr\u00f3pria qualidade. E de todo este f\u00e9rculo org\u00edaco, \u00e9 o mesmo Homem que, \u00e9brio, repousa num encosto, eructando ruidosamente, regurgita a mat\u00e9ria putrefacta, sente-lhe o acre sulf\u00farico, a emana\u00e7\u00e3o excrement\u00edcia, os gl\u00f3bulos pastosos por digerir cuja configura\u00e7\u00e3o t\u00e3o prazerosamente se demora em adivinhar serpejando a l\u00edngua pelo palato, carcomido pelos \u00e1cidos e pelos vermes que se locomovem em espasmos, mais perturbados pela repugnante atmosfera fecal em que nadam que o dono daquela boca, que agora desperta deste enlevo (um fedor lhe ati\u00e7ou a glutonia), sonda o mento peludo, encontra uma falange olvidada, observa-a como que intentando se lembrar a quem j\u00e1 pertencera, perde-se no pensamento, j\u00e1 n\u00e3o lhe importa, esgravata com a unha agarrada \u00e0quele osso os dentes imundos que ainda ret\u00e9m, r\u00f3i o restante, e num \u00edmpeto fulminante de \u00e2nimo e gl\u00f3ria, num derrame de g\u00e1udio supremo, levanta-se e, ah meu Deus!, ergue as m\u00e3os aos c\u00e9us, profere \u00abAben\u00e7oai este alimento que tomo\u00bb e engole tudo, empurrando aquele visco at\u00e9 \u00e0s entranhas sedentas! Afasta-se sem tardan\u00e7a daquele local (para o mais comum dos observadores nada acontecera), espera-o nova refei\u00e7\u00e3o, que isto \u00e9 gente de muito alimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto, meu Deus, \u00e9 a verdadeira gula! A dos que n\u00e3o t\u00eam verdadeira boca!, porque verdadeira \u00e9 aquela que profere o Verbo, espargindo a Palavra do Senhor e fazendo-o \u00e0 Vossa semelhan\u00e7a! N\u00e3o mais que cavidades dist\u00f3picas s\u00e3o aquelas que proferem a repulsa e estabelecem o dom\u00ednio por soberba subordina\u00e7\u00e3o dos corpos que s\u00f3 a V\u00f3s pertencem, aut\u00eantica emula\u00e7\u00e3o de cecos.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu, meu Deus, eu sou implicada!, porque quando descasco um arom\u00e1tico pomo ou uma doce laranja, ao lhe tirar esses inv\u00f3lucros e essas t\u00fanicas org\u00e2nicas, fa\u00e7o-o desinteressada e precipitadamente como se fosse condi\u00e7\u00e3o imanente daqueles frutos o terem sido criados para meu proveito e divididos convenientemente em gomos para mais f\u00e1cil ser o seu consumo. Mas <em>facilis est descensus averni<\/em><a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>, f\u00e1cil \u00e9 trilhar o caminho do mal. N\u00e3o ser\u00e1 aquela minha atitude um princ\u00edpio para atitudes mais graves e mais abjetas, meu Deus? Tal qual quando sacudimos um qualquer inseto alado que nos incomode, quando calcamos as l\u00e2minas das ervas rasteiras, isso n\u00e3o ser\u00e1 a causa primeva para o Homem manipular as Vossas criaturas como se a ele pertencessem? N\u00e3o ser\u00e1 isto a causa das gaiolas, das cadeias, das piozes, das trelas, dos jugos, das esporas?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o digo que objetos tais sejam perdi\u00e7\u00e3o, mas a inten\u00e7\u00e3o, meu Deus, a inten\u00e7\u00e3o com que os manuseiam \u00e9 que encerra a vil baixeza \u2013 a de o Homem tudo querer devorar, (de novo) desinteressada e precipitadamente. E o mais miser\u00e1vel, o mais pungente, \u00e9 que o que o mesmo Homem traga mais frequentemente, e num s\u00f3 gole, s\u00e3o outros Homens, outros a que n\u00e3o me refiro nestas <em>Confiss\u00f5es<\/em>, porque imerecedores de repreens\u00e3o, porque fl\u00e9beis e, ainda assim, humildes e temerosos a V\u00f3s \u2013 os mais puros crist\u00e3os, os \u00fanicos a que \u00e9 digno atribuir tal designa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De todo o modo, enfermidades do ventre, boca, intestinos e coisas que tais est\u00e3o sob o minist\u00e9rio de Santo Erasmo, ou S\u00e3o Elmo (como aprouver ao fregu\u00eas), sempre em frente, direita.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00f3 meu Deus!, eu Vos pe\u00e7o, \u00f3 Criador do C\u00e9u e da Terra, mitigai esta minha dor, lenificai esta minha pervers\u00e3o, pois pensei ter senhorio deste p\u00f3 e destas l\u00e1grimas e deste mundo \u00e0 vista e, por isso, os usei sem a morabeza com que V\u00f3s me criastes e a todas as coisas! Animai-me de confian\u00e7a, porque n\u00e3o me reconhe\u00e7o em Luzia, pois me parece que luzir nunca fui capaz! \u00d3 meu Deus, santificai estes ossos, estes humores, estes olhos, este ventre!&#8230; Diga? Desculpe? Ah, muito bem, deixe s\u00f3\u2026 Muito bem, pode dizer\u2026 nove, cinco, um, cinco, zero, oito, zero, tr\u00eas\u2026 repita s\u00f3 o \u00faltimo, se faz favor\u2026um? Muito bem\u2026 Diga-me s\u00f3 uma coisa, Elmo leva H?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> \u00abE Deus os aben\u00e7oou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e subjugai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos c\u00e9us, e sobre todo o animal que se move sobre a terra\u00bb (Genesis, 1:28)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> <em>Salm.<\/em> CXV, 16-17<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> \u00abJ\u00e1 n\u00e3o vos chamo servos, porque o servo n\u00e3o sabe o que faz o seu senhor; chamo-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer\u00bb (Jo\u00e3o, 15:15)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Virg\u00edlio, Eneida, VI, 126.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1.\u00ba Classificado Diogo Heleno, 12.\u00ba B Livro Segundo \u00abBenedixitque illis Deus et ait crescite et multiplicamini et replete terram et subicite eam et dominamini piscibus maris et volatilibus c\u00e6li et universis animantibus qu\u00e6 moventur super terram\u00bb[1] \u00ab\u00d3 Senhor, eu sou Voss[a] serv[a], sim, Voss[a] serv[a] e filh[a] de Vossa escrava. 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