{"id":272,"date":"2020-06-18T10:24:22","date_gmt":"2020-06-18T09:24:22","guid":{"rendered":"http:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/?p=272"},"modified":"2020-06-18T10:29:52","modified_gmt":"2020-06-18T09:29:52","slug":"xviii-concurso-de-conto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/?p=272","title":{"rendered":"XVIII Concurso de Conto"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/XVIII-CONTO_reduzido.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-262\" width=\"309\" height=\"216\" srcset=\"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/XVIII-CONTO_reduzido.png 707w, https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/XVIII-CONTO_reduzido-300x210.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong><span style=\"color:#ff060a\" class=\"has-inline-color\">2.\u00ba Classificado<\/span><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong><span style=\"color:#1307ff\" class=\"has-inline-color\">Rui Verdasca, 12.\u00aa H<\/span><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>TUDO PODE UMA AFEI\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Nova-imagem-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-273\" width=\"214\" height=\"273\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"16\" src=\"http:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Sem-T\u00edtulo-1024x16.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-279\" srcset=\"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Sem-T\u00edtulo-1024x16.jpg 1024w, https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Sem-T\u00edtulo-300x5.jpg 300w, https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Sem-T\u00edtulo-768x12.jpg 768w, https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Sem-T\u00edtulo.jpg 1211w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>No ano de mil quinhentos e setenta dois, quando o Pa\u00e7o da Ribeira ribombava com uma das suas habituais festividades, t\u00e3o t\u00edpicas da corte portuguesa e do pueril rei que sempre se regozijava em ca\u00e7as reais e noturna embriaguez, caminhava \u00e0 beira do Tejo um sujeito que, olhando o azul n\u00edtido das \u00e1guas, em v\u00e3o procurava uma ablu\u00e7\u00e3o que o salvasse. Sentindo o cansa\u00e7o que o consumia h\u00e1 dias, estava ele no ponto de seu limite, e a vereda em sua frente, t\u00e3o bonita, nunca fora t\u00e3o dilacerante como agora. Em verdade, sabia ele que caminhos fizera muitos, mais do que a condi\u00e7\u00e3o humana requeria, e tantos mais tinha pela frente. Esses eram, contudo, um s\u00f3 \u2013 restante e \u00ednfimo (para ele a futura completude) na teia de trilhos e vias que todos os dias se concretizam na vida dos homens. E em breves horas, se \u00e9 que existem horas ou brevidade, o grande trajeto da sua vida veria o seu princ\u00edpio, cuja voragem do sonho faria com que acabasse t\u00e3o rapidamente como come\u00e7aria. O tempo, na verdade, extingue-se quando em esp\u00edrito nos tornamos. N\u00e3o o sentimos. E ele caminhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de entrar em sua casa, tinha sido alvo das habituais galhofas que este povo lisboeta lhe lan\u00e7ava, em concreto pelo facto de que do olho direito n\u00e3o via, perdido este na sua viagem ao Oriente. Restou-lhe o esquerdo, local do Diabo; mas que, em pacto com o mesmo, lhe deu dupla vis\u00e3o, afincada e feroz. Tantas vezes dilacerado pela vis\u00e3o dos olhos dos que amou, e daquele verde que nunca se olvidaria, procurava agora a estabilidade que o seu cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o informe, nunca satisfeito, dificilmente lhe dava. H\u00e1 tempos, escrevera sobre a insatisfa\u00e7\u00e3o e dessa felicidade que chega e foge. Lembrava-se vagamente de seus versos, of\u00edcio doloso para poeta que \u00e9 o regurgitar o que se escreve, e matutava na sua mente <em>N\u00e3o ganhou para perder; mas ganhou, com vida igual, n\u00e3o ter bem nem sentir mal<\/em>. Que \u00e9 isso, no entanto, de estar no entre das coisas? Ver serenidade, ler Hor\u00e1cio, lembrar Epicuro? O que sabem eles do amor intenso de um homem que tudo sente e tudo quer e tudo faz? N\u00e3o sabem nada. O sentimento \u00e9 englobante, <em>desintensifica-se e <\/em>retorna num eterno <em>loop<\/em> de oitos e oitentas, de tal modo que o determinismo, t\u00e3o real, se submete de joelhos esfarelados \u00e0quilo que, sendo inef\u00e1vel, damos o nome amor.<\/p>\n\n\n\n<p>A raz\u00e3o pela qual n\u00e3o sabemos ainda o nome do nosso caminhante deve-se, primacialmente, ao facto de tamb\u00e9m ele ser desconhecido, na hist\u00f3ria que aqui se desenrola. Eram poucos os que conheciam o nome de Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es. Tinha m\u00e3e esperando em casa, amor primevo que s\u00f3 m\u00e3es conhecem. E poucos eram os seus conhecidos e amigos, para al\u00e9m dos seus amores que perseguia, em caso esquecidos, j\u00e1 que os rios de tinta que escrevera serviam essa mesma fun\u00e7\u00e3o reminiscente. Ultimamente, apenas o inquisidor-mor do Santo Of\u00edcio o ia vendo com alguma frequ\u00eancia, nas viagens de idas e voltas que Lu\u00eds Vaz dispunha, a fim de finalmente publicar a sua obra, poema \u00e9pico sobre a gesta portuguesa no Oriente. Eis o motivo de seu cansa\u00e7o e descontentamento: esse of\u00edcio, que \u00e9 santo, obrigara-o a modificar est\u00e2ncias e versos, t\u00e3o queridos na mente de um poeta, pelo que t\u00e3o contundente \u00e9 ter que os assassinar. Muito paradoxal era, ent\u00e3o, essa santidade \u2013 uma que nos deu liberdade, l\u00e1 com Ad\u00e3o e Eva, e agora o calava, como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos comido a ma\u00e7\u00e3 da \u00e1rvore da vida, para vermos que somos nus.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo entrado em casa, o parecer do Santo Of\u00edcio tinha sido em boa hora e, desta vez, permissivo; mas Lu\u00eds Vaz, numa \u00faltima vertiginosa releitura, n\u00e3o estava satisfeito. Tudo retornava ao seu canto nono, seu canto t\u00e3o precioso que a seus olhos era o seu orgulho. Lia-o com frequ\u00eancia quando, pacato e tristonho, tentava <em>buscar-lhe algum deleite, algum descanso<\/em>. Pensando-o irrealizado, mormente com a parte final do canto sublime, e lembrando Ov\u00eddio quando este escrevia <em>finis coronat opus<\/em>, sabia que necessitava coroar o final para que a sua obra enfim se concretizasse na sua plenitude. E tudo voltava a Plat\u00e3o: a chave aristof\u00e2nica da vida e da obra camoniana, o seu ep\u00edtome vital que \u00e9 o transformar-se o amador na coisa amada. Estranha linguagem pensaria Lu\u00eds Vaz: um apelido, Cam\u00f5es, tornar-se em adjetivo, camoniano, este que desconhecido era. Sentia, de qualquer forma, que faltava algo entre o verso que acabava a est\u00e2ncia octog\u00e9sima segunda <em>Que todo se desfaz em puro amor<\/em> e o que iniciava a sua octog\u00e9sima terceira <em>Que as Ninfas do Oceano, t\u00e3o fermosas<\/em>. Por\u00e9m, qual era a car\u00eancia dessa poesia? Cerca de seis estrofes, que Lu\u00eds Vaz ainda n\u00e3o conhecia; mas era forte e grandioso o que profetizava escrever, porque o fim \u00e9, discorram os eruditos, o cl\u00edmax do que se implanta no papel, tal como o \u00e9 da vida. N\u00e3o conhecia, contudo, o que faltava, esse qu\u00ea ainda n\u00e3o materializado, se alguma vez o foi. E em desespero de criador, pronto a enunciar novamente, em rugidos interiores, n\u00e3o mais, n\u00e3o mais <em>que a lira tenho destemperada e a voz enrouquecida<\/em>, caiu Cam\u00f5es em sonoe, nesse <em>profundo Oceano<\/em> dessa Ilha que vinha relatando, sonhava\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Na Ilha em que estava, esta que \u00e9 do Amor e n\u00e3o dos Amores, via todo o tipo de verdes que a Natureza podia conjurar; mas, no topo, entre as nuvens, estava o mais distinto de todos: o dos olhos daquela vista que nunca se olvidaria. A sua grande paix\u00e3o, ainda pequenina neste <em>a priori<\/em> que \u00e9 o ver, fulminava-o, e Cam\u00f5es corria, louco, fugindo cada vez mais da realidade que o amea\u00e7ava acordar.&nbsp; Exasperante, a escada et\u00e9rea prostrou-se ante seus olhos: ah, que tudo acontece nos olhos! Subia os degraus, os mais intensos, o caminho que lhe faltava percorrer\u2026 Certamente V\u00e9nus estava a olh\u00e1-lo em deleite. Subia, pensando no Tejo, e sobre os rios que v\u00e3o ao seu encontro, afinal ele os procurava. Em raio agigantado, trovante, criador, Cam\u00f5es perdeu-se entre as nuvens, <em>verdeficando-se<\/em>, se se pode neologizar o inef\u00e1vel, pleno na constante poeticidade sua de <em>transforma-se o amador na cousa amada<\/em>. Ah, Arist\u00f3fanes, que em banquete vias S\u00f3crates e ele a ti te via! O olhar de ambos, as metades e a escada! A Ilha transformou-se, Cam\u00f5es transformou-se, e tudo passou a verde. Foi o amor, e despertou\u2026 Luziu a lamparina, a luz era real. Deixando a espada de seus infort\u00fanios passados, pegou na pena, sua estimada instrumentaliza\u00e7\u00e3o de si mesmo, e em voragem espiritual, n\u00e3o sentindo o tempo, escreveu esses versos que lhe faltavam. Principiando uma nova est\u00e2ncia octog\u00e9sima terceira <em>Oh! Que famintos beijos na floresta<\/em>, acabava quarenta e seis versos depois <em>Com fama grande e nome alto e subido<\/em>. Havia terminado a derradeira obra. E pensava: olhos verdes, olhos verdes que sois <em>o sumo da perfei\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>porque s\u00e3o vossos<\/em>! E, por isso, meus\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Vaz, imaterializando-se, em verdade se diga, para sempre <em>de louro e de ouro e flores abundantes<\/em>, subiu ao telhado de sua casa. No topo, vendo ao longe o Pa\u00e7o da Ribeira e as festas que l\u00e1 iam, olhou o Tejo: a \u00e1gua era, e sempre fora, verde. Olhou de novo e, finalmente, j\u00e1 quase no fim da vida, ap\u00f3s in\u00fameros galanteios e engates, percebeu que o Amor \u00e9 um s\u00f3: para um amador, uma s\u00f3 cousa amada, a metade que vagueia pela outra, pelas \u00ednsulas mais dispersas em oceanos por achar se a\u00ed for verdadeiro o sentimento l\u00edquido da origem criadora. Em cima do telhado, sentindo a alma em que se tornara, unindo-se nele mesmo, no poema que pelo amor terminou, e olhando somente o verde do Tejo, murmurou, sorrindo, <em>tudo pode uma afei\u00e7\u00e3o<\/em>\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>2.\u00ba Classificado Rui Verdasca, 12.\u00aa H TUDO PODE UMA AFEI\u00c7\u00c3O No ano de mil quinhentos e setenta dois, quando o Pa\u00e7o da Ribeira ribombava com uma das suas habituais festividades, t\u00e3o t\u00edpicas da corte portuguesa e do pueril rei que sempre se regozijava em ca\u00e7as reais e noturna embriaguez, caminhava \u00e0 beira do Tejo um &#8230; <a title=\"XVIII Concurso de Conto\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/?p=272\" aria-label=\"Leia mais sobre XVIII Concurso de Conto\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19,13,24],"tags":[],"class_list":["post-272","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-concursos","category-conto","category-lemos-com-sentidos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/272","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=272"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/272\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":281,"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/272\/revisions\/281"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mediateca.age-mgpoente.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}